Durante décadas, a britânica Gemma Renwick conviveu com um problema que não conseguia explicar: ela era incapaz de arrotar. O ar preso provocava inchaço intenso, dores e ruídos que saíam de sua garganta e eram comparados ao coaxar de um sapo.Somente aos 43 anos, após descobrir que os sintomas estavam ligados a uma condição ainda pouco reconhecida, ela recebeu um tratamento com toxina botulínica e conseguiu arrotar pela primeira vez.Gemma, que vive em Eastleigh, no condado de Hampshire, na Inglaterra, conta que cresceu sem saber que havia algo de errado. Além da barriga frequentemente inchada, os barulhos involuntários na garganta chamavam a atenção das pessoas. Segundo ela, a situação era particularmente constrangedora durante a juventude e, mais tarde, também passou a incomodá-la em reuniões profissionais, conversas com clientes e telefonemas.Os sintomas eram provocados pela disfunção cricofaríngea retrógrada, conhecida pela sigla R-CPD e também chamada de “síndrome do não arroto”. A condição ocorre quando o músculo cricofaríngeo, localizado na parte superior do esôfago, não relaxa adequadamente para permitir que o ar acumulado saia pela boca. Leia também SaúdeMenina nasce com condição rara que causa lesões na boca e no pescoço SaúdeCondição extremamente rara faz bebê nascer sem olhos no Reino Unido SaúdeDoença de Wilson: entenda condição rara que estoca cobre no fígado Vida & Estilo“Síndrome de lobisomem”: jovem com condição rara vira influencer Anos de sintomas sem uma explicaçãoA partir dos 21 anos, Gemma procurou médicos diversas vezes por causa dos problemas abdominais. Segundo o relato de suas rede sociais, ela recebeu medicamentos para síndrome do intestino irritável e orientações para mudar a alimentação diante da possibilidade de alergias, mas continuou sem uma explicação para o conjunto de sintomas.Além dos ruídos na garganta, Gemma apresentava inchaço intenso e dor provocada pelo acúmulo de ar. Com o passar dos anos, o desconforto começou a interferir ainda mais na rotina. Em algumas ocasiões, ela precisava deixar eventos antes do fim e voltar para casa para se deitar na tentativa de aliviar a pressão.A britânica relatou que a dor não ficava restrita ao abdômen e também atingia o peito. Nos momentos mais intensos, sentia falta de ar e dificuldade para continuar comendo ou bebendo. O consumo de bebidas alcoólicas também agravava o quadro, aumentando o inchaço, a náusea e a dor no peito.A explicação está na forma como o organismo elimina o ar engolido durante a alimentação e a ingestão de líquidos. Normalmente, quando o gás sobe do estômago pelo esôfago, o músculo cricofaríngeo relaxa para permitir sua saída na forma de arroto. Na R-CPD, o músculo funciona durante a deglutição, permitindo a passagem dos alimentos, mas não relaxa adequadamente no sentido contrário para liberar o ar.Com isso, o gás pode se acumular no esôfago, no estômago e no intestino, provocando distensão abdominal, pressão no peito e no pescoço, ruídos e excesso de flatulência. A causa da alteração ainda não é conhecida, e muitas pessoas convivem com o problema desde a infância.Descoberta veio pelas redes sociaisA resposta para Gemma apareceu somente em 2024. Ao assistir a um vídeo no TikTok sobre pessoas incapazes de arrotar, ela percebeu que os sintomas descritos eram semelhantes aos que apresentava desde jovem e passou a suspeitar da R-CPD.Após descobrir a origem do problema, Gemma decidiu procurar tratamento particular. Em maio de 2026, aos 43 anos, ela aplicou toxina botulínica no músculo cricofaríngeo. O uso da substância tem uma finalidade diferente da aplicação estética mais conhecida. A toxina reduz temporariamente a contração do músculo, permitindo que ele relaxe e que o ar acumulado consiga subir pelo esôfago e sair pela boca.Gemma percebeu os primeiros resultados rapidamente. Segundo ela, entre o quarto e o quinto dia após a aplicação, os arrotos começaram a sair com mais facilidade e ficaram progressivamente maiores.A melhora também apareceu nos demais sintomas. Cinco semanas após o procedimento, Gemma afirmou que não apresentava mais o inchaço abdominal nem os problemas provocados pelo excesso de gases que fizeram parte de sua rotina durante décadas.Apesar do resultado relatado por Gemma, a aplicação de toxina botulínica para R-CPD deve ser realizada por profissionais especializados. Entre os possíveis efeitos adversos estão dificuldade temporária para engolir, sensação de alimento parado ou de um “caroço” na garganta e refluxo. Para Gemma, porém, conseguir arrotar representou uma mudança que ultrapassou o alívio físico.








