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Advogado apontado pela investigação como membro da facção diz que teria reunião com o ex-presidente da Câmara Municipal e o ex-presidente da SPTrans

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O ex-vereador Milton Leite — Foto: Larissa Navarro/ Alesp
Operação do Ministério Público e da Polícia Civil de São Paulo deflagrada nesta quinta-feira (17) teve como um dos alvos o ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite. Ele é mencionado em áudios obtidos pela investigação, em que um homem apontado como membro e operador do Primeiro Comando da Capital (PCC) articula mudanças no transporte público da capital paulista e cita o ex-vereador (veja mais abaixo).
A operação Vectura Corrupta aponta que o PCC teria controle, em tese, de 12 das 22 empresas que operam o transporte coletivo da capital paulista. Os investigadores analisaram mensagens extraídas de celulares, documentos e informações financeiras e encontraram indícios de vínculos entre os investigados e integrantes ou colaboradores do PCC. O tribunal autorizou prisões, buscas e apreensões e acesso aos dados dos equipamentos apreendidos.
Leite é alvo de um pedido de prisão temporária, de 30 dias, e não foi encontrado em casa pela polícia. Para O GLOBO ele negou todas as acusações e disse que vai se apresentar para as autoridades em 24 horas.
A referência a Milton Leite aparece na relação dos 13 investigados. O despacho afirma que o ex-vereador é citado nominalmente diversas vezes como responsável direto pela operação de algumas empresas controladas pelo PCC. Em seguida, registra que policiais militares, em procedimento na Justiça Militar, disseram que ele seria o dono de fato da Transwolff.
O documento não detalha quais seriam todas as empresas atribuídas a Leite nem apresenta, nesse trecho, elementos sobre sua eventual participação formal na sociedade da Transwolff.
Áudios mencionam Milton Leite
Em um dos trechos do documento que embasa os pedidos de prisão, a Polícia Civil cita um diálogo entre José Daniel Satilite, apontado como membro do PCC e operador da facção no setor de transporte público, e um advogado, em que Milton Leite é mencionado. As mensagens são de julho de 2024. Ouça a seguir:
Operador do PCC cita Milton Leite em áudios ao articular mudanças no transporte de SP
Os diálogos ocorrem três meses depois de uma operação que revelou as acusações contra a UPBus, que operava linhas de ônibus na capital paulista. A empresa foi apontada como um braço do PCC para lavagem de dinheiro.
A UPBus acabou sendo retirada da operação das linhas de ônibus na Zona Leste da cidade de São Paulo. Nas mensagens, José Daniel fala de articulações que estaria realizando para tentar emplacar a empresa Translíder como substituta da UPBus. A Translíder é uma empresa que atuou no setor de transporte coletivo da cidade de Cubatão, na Baixada Santista e tem José Daniel como parte do quadro societário.
Nos áudios, José Daniel afirma que essa operação teria que "envolver" Milton Leite e Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, a empresa municipal responsável pelo transporte público da capital paulista.
Leite é citado em dois áudios, o primeiro de 11 de julho de 2024 e o segundo de 15 de julho de 2024, às 15h. José Daniel cita que uma reunião seria marcada para tratar do assunto, mas não menciona data, hora ou local do encontro.
Novamente no dia 15, mas às 21h, em novas mensagens José Daniel relata já ter dialogado com Levi dos Santos e afirma que o ex-presidente da SPTrans questionou se ele tinha tratado do tema da troca da UPBus pela Translíder com Bira, apelido de Ubiratan Antonio da Cunha, então presidente da UPBus.
José Daniel afirma então que respondeu a Levi que não precisava dialogar com Ubiratan e sim com o "patrão dele", o Cebola, apelido de Silvio Luiz Ferreira. Cebola foi apontado em diversas investigações como membro do PCC e o controlador da UPBus. Ele também foi acusado de atuar em outras frentes da facção, como o tráfico de drogas, e segundo a polícia, usava a UPBus para lavar o dinheiro vindo dos pontos de vendas de entorpecentes.
A troca da Translíder pela UPBus na operação das linhas de ônibus, no entanto, não aconteceu. A empresa que acabou assumindo as linhas foi a Alfa Rodobus. As investigações da terceira fase da Operação Vectura Corrupta, no entanto, também apontaram que a Alfa seria ligada ao PCC.
Mensagens de José Daniel obtidas pela Polícia Civil mostram o rol de empresas de ônibus que seriam da facção. 12 das 22 empresas que operam o transporte público municipal estariam sob o comando do PCC.
A Alfa assumiu os contratos da UPBus em fevereiro deste ano. "Chama a atenção ainda que após a Operação Fim da Linha e a consequente rescisão da concessão em face da Qualibus/UPBus, a empresa que a sucedeu na exploração das linhas antes operadas pela UPBus foi justamente a empresa Alfa Rodobus, de tal sorte que é extremamente preocupante o vínculo de tais empresas — alguns já confirmados — com o crime organizado", afirma a Polícia Civil em documentos da investigação, obtidos pelo GLOBO.
Leite nega as acusações
Ao GLOBO, Leite afirmou por telefone que está "viajando" e que foi "surpreendido com o mandado de prisão", que foi recebido por sua advogada. Ele não informou a cidade onde está.
— Nego veementemente qualquer acusação, não sou dono da empresa, só tinha relação porque era próximo lá. Não tenho nada a ver com PCC, nunca encontrei esse pessoal na vida. Não havia sido intimado a depor, e fui surpreendido com o mandado de prisão. Minha advogada esta em São Paulo e recebeu a intimação. Não estou em São Paulo, eu estou viajando mesmo, não vou falar a cidade para não virem me buscar. Eu preciso de 24 horas para organizar a defesa — falou.
Além dos ônibus: documento cita planos do PCC para avançar sobre ONGs e saúde pública em São Paulo
A investigação que aponta a presença do Primeiro Comando da Capital (PCC) em empresas de ônibus de São Paulo e que levou ao pedido de prisão do ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil), também identificou indícios de que a facção buscava ampliar sua atuação para a área da saúde. Segundo documento do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), um dos investigados teria discutido a criação de uma organização não governamental (ONG) como parte de um possível modelo de atuação fora do tráfico de drogas.
O caso aparece em uma decisão judicial de 4 de setembro que autorizou medidas relacionadas à investigação. No documento, a polícia afirma haver “indícios de utilização da área da saúde como outro braço de atuação da organização criminosa”. A apuração, porém, ainda está em andamento e a decisão ressalta que os elementos reunidos até aquele momento não permitem estabelecer responsabilidade criminal definitiva.
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