Corredor com boa quilometragem já passou por este tipo de perrengue. As pernas estão ótimas, a respiração constante e o ritmo segue no melhor pace. Mas, o estômago resolve dar as caras e ferra tudo. A corrida deixa de ser sobre quilometragem e passa a ser sobre a procura por um banheiro químico.

Dani Germano em banheiro químico na Maratona de Porto Alegre de 2026: tirou a foto para mandar para um grupo de amigas e diz que é "libertador falar de coco" — Foto: Arquivo pessoal
Dani Germano em banheiro químico na Maratona de Porto Alegre de 2026: tirou a foto para mandar para um grupo de amigas e diz que é "libertador falar de coco" — Foto: Arquivo pessoal · Imagem: Dani Germano em banheiro químico na Maratona de Porto Alegre de 2026: tirou a foto para mandar para um grupo de amigas e diz que é "libertador falar de coco" — Foto: Arquivo pessoal

E esses locais estão quase sempre sujos, mal cheirosos, sem papel higiênico e sem espaço para lavar as mãos. Quando bate o desespero no meio de uma prova, eles são difíceis até de encontrá-los.

Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis
Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis · Imagem: Source: oglobo.globo.com

— Não vou para nenhuma prova sem um pacote de mini lenços umedecidos. É tipo: 'faz parte do kit'. — diz a maratonista e criadora de conteúdo Dani Germano, de 34 anos, que após episódio em uma corrida em São Paulo, passou a adotar esta regra.

Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis
Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis · Imagem: Source: oglobo.globo.com

Ela contou que na edição do ano passado da SP City teve um piriri e precisou parar quatro vezes durante o percurso.

Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis
Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis · Imagem: Source: oglobo.globo.com

No primeiro banheiro químico encontrou papel higiênico. No segundo, "uma alma caridosa", que aguardava na fila, lhe socorreu. No terceiro, teve de se resolver com o resto do resto do rolo. E depois foi no improviso mesmo. O manguito, aquele acessório que cobre os braços em dias mais frios, foi a salvação.

Nilson Lima na Maratona de Biwako: ele já completou 435 maratonas pelo mundo — Foto: Arquivo pessoal
Nilson Lima na Maratona de Biwako: ele já completou 435 maratonas pelo mundo — Foto: Arquivo pessoal · Imagem: Nilson Lima na Maratona de Biwako: ele já completou 435 maratonas pelo mundo — Foto: Arquivo pessoal

— Mas só usei um e descartei, óbvio. É que se precisasse parar de novo, teria o segundo (risos). Graças a Deus não precisei mais e cruzei a linha de chegada com dignidade e um manguito — conta Dani, aos risos. — Se eu estivesse no Japão, com certeza teria sido menos perrengue.

Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis
Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis · Imagem: Source: oglobo.globo.com

Dani Germano em banheiro químico na Maratona de Porto Alegre de 2026: tirou a foto para mandar para um grupo de amigas e diz que é "libertador falar de coco" — Foto: Arquivo pessoal

Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis
Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis · Imagem: Source: oglobo.globo.com

Ela, que já correu a Maratona de Nagoya, em 2026, exclusiva para mulheres (com cerca de 22 mil corredoras), teve excelente experiência neste quesito. Precisou usar o banheiro para o número 1, na largada, e se surpreendeu.

Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis
Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis · Imagem: Source: oglobo.globo.com

— O banheiro estava limpíssimo. O Japão, em relação à limpeza, é um caso à parte. Durante o percurso tinham voluntários com sacos para o descarte do pacote de gel de carboidrato. Ninguém joga copo de água no chão. Já estão acostumados a fazê-lo em locais específicos — comentou Dani.

Corredoras se preparam para usar o mictório feminino na Maratona de Berlim: praticidade para o xixi — Foto: Cacá Filippini/Arquivo pessoal
Corredoras se preparam para usar o mictório feminino na Maratona de Berlim: praticidade para o xixi — Foto: Cacá Filippini/Arquivo pessoal · Imagem: Corredoras se preparam para usar o mictório feminino na Maratona de Berlim: praticidade para o xixi — Foto: Cacá Filippini/Arquivo pessoal

Ela contou ainda que, ao acompanhar o marido, Guilherme Leporace, também maratonista e fotógrafo de corrida, durante a Maratona de Tóquio, em 2026, ficou "chocada" com a quantidade de banheiros públicos no decorrer do percurso.

Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis
Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis · Imagem: Source: oglobo.globo.com

— Não eram cabines, eram banheiros públicos, limpos e sinalizados. Além disso, voluntários seguravam plaquinhas indicando os locais dos banheiros para facilitar a vida dos corredores — comentou ela. — Em pelo menos cinco pontos em que estive, vi as indicações. O que para a gente é bizarro. Porque se alguém tiver uma diarreia correndo na Lagoa... sinto muito.

Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis
Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis · Imagem: Source: oglobo.globo.com

Nilson Lima, de 73 anos, conhecido como o "homem maratona", uma vez que já concluiu 435 maratonas ao redor do mundo, tem know how para analisar banheiros químicos nas corridas de rua. E ele, que já correu várias vezes no Japão, pelo menos em quatro ocasiões em Tóquio, endossa Dani:

Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis
Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis · Imagem: Source: oglobo.globo.com

— Os do Japão são imbatíveis — afirma ele, que atesta: — Banheiros químicos são o terror dos corredores. Ninguém quer ter de usar.

Banheiro de luxo na Muralha Up and Down: até ar condicionado — Foto: Silvio Boia/Arquivo pessoal
Banheiro de luxo na Muralha Up and Down: até ar condicionado — Foto: Silvio Boia/Arquivo pessoal · Imagem: Banheiro de luxo na Muralha Up and Down: até ar condicionado — Foto: Silvio Boia/Arquivo pessoal

Limpo a cada acesso

Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis
Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis · Imagem: Source: oglobo.globo.com

Nilson conta que foi em 2024, na Maratona de Biwako, realizada anualmente ao redor do Lago Biwa, na província de Shiga, que encontrou o melhor banheiro de corrida de rua. O evento recebe cerca de 8 mil corredores.

Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis
Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis · Imagem: Source: oglobo.globo.com

— Extremamente limpo, com filas organizadas. A cada acesso, uma pessoa limpava o local, antes de entrar o seguinte — comenta Nilson, que disse que tinha reposição constante de papel higiênico e lixeiras organizadas. — Nunca tinha visto isso e nunca mais vi.

Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis
Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis · Imagem: Source: oglobo.globo.com

Nilson Lima na Maratona de Biwako: ele já completou 435 maratonas pelo mundo — Foto: Arquivo pessoal

Silvio Boia na Muralha Up and Down: maratona na serra do Rio de Janeiro — Foto: Arquivo pessoal
Silvio Boia na Muralha Up and Down: maratona na serra do Rio de Janeiro — Foto: Arquivo pessoal · Imagem: Silvio Boia na Muralha Up and Down: maratona na serra do Rio de Janeiro — Foto: Arquivo pessoal

Ele observa que, além do capricho da organização, há forte colaboração dos participantes e do público para manter o ambiente limpo e para descartar os materiais corretamente.

Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis
Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis · Imagem: Source: oglobo.globo.com

Disse que em outras provas no Japão, há quantidade grande de banheiros, espalhados por todo o percurso. E várias ilhas de mictórios coletivos, ao ar livre.

Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis
Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis · Imagem: Source: oglobo.globo.com

Segundo ele, como privada é assunto sério no Japão, os banheiros químicos acabam sendo mais sofisticados (o país é conhecido pelas privadas inteligentes). Disse que, entre outros pontos, o fosso não fica "aberto". A privada tem descarga, que é uma tampa que abre e fecha.

Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis
Deu piriri? Maratonistas elegem os melhores banheiros químicos em provas de rua; os do Japão são imbatíveis · Imagem: Source: oglobo.globo.com

Nilson conta que costuma usar os banheiros químicos antes da largada para fazer xixi. Mesmo quando não tem vontade. Ele chega cedo para evitar grandes filas que, segundo ele, são volumosas independentemente do tamanho do evento e do local onde é realizada.

Outra constatação é que na grande maioria não tem reposição de papel.

— E mesmo quando uso no hotel, antes de sair, volto a ter vontade. É psicológico. Então, sempre calculo que vou perder algum tempo nessa fila — declara ele, que não para durante a corrida para fazer xixi. — Se precisar, jogo água por dentro do calção e mando ver.

Nilson afirma que sua questão é com o número 1 e que quando passou aperto para fazer o número 2 teve sorte. Conseguiu usar banheiro de posto de gasolina e de barzinho em estradas. Afirma categoricamente que os corredores arrumam um jeito de se resolver e evitam abandonar as provas.

Ele, que estará pela oitava vez na Maratona de Berlim, neste final de semana, tem apenas mais sete países para concluir os países europeus (Letônia, Hungria, Mônaco, Croácia, Liechtenstein, Luxemburgo e Azerbaijão). E comenta que tem percebido aumento de mictórios coletivos nas corridas pelo mundo.

— Acho uma solução prática para redução de filas — opina ele, que há 15 dias correu a Maratona Du Medoc, em Bordoux, na França, com tapete vermelho, na porta do banheiro. — Uma prova festiva, bem organizada.

Mictório feminino

A comunicadora Cacá Filippini, de 47 anos, já experimentou e aprovou o mictório feminino da marca francesa Lapee, durante a Maratona de Berlim.

A estrutura rosa abriga três privadas em uma espiral, dando privacidade para as usuárias, que mesmo sentadas, têm ciência do que acontece a sua volta. Assim como os mictórios masculinos, esta estrutura é aberta na parte superior.

Corredoras se preparam para usar o mictório feminino na Maratona de Berlim: praticidade para o xixi — Foto: Cacá Filippini/Arquivo pessoal

Para ela, esses banheiros químicos são as melhores opções em eventos de corrida de rua. Diz que são práticos e desafogam as filas.

— A princípio é um banheiro que sai dos padrões “normais” mas para quem precisa apenas fazer um xixizinho, funciona muito bem. É rápido, tipo um "pipi stop". A primeira vez que vi foi em 2019 e descobri que todos os anos eles estão por lá. Inclusive há dois anos, quando corri Berlim novamente, pude testar sua praticidade — diz Cacá, que acha que talvez sentisse vergonha para usá-lo no "outro caso". — Por ser uma estrutura aberta, não é sufocante nem tem cheio desagradável. E, claro, não dá para ver a pessoa sentada ali.

Cacá conta que é uma corredora que bebe muita e por isso para para fazer xixi. Assim, os mictórios femininos lhe ajudaram a não perder tanto tempo fora da corrida.

Lamentou que os viu apenas em corridas na Alemanha. Sabe, porém, que a empresa também atua em cerca de 20 países, a maioria na Europa, como Suécia e Suíça, mas também na Colômbia e Austrália.

Cacá afirma que não passa aperto. Quando precisa, acha solução para "se resolver". E lembrou de treino, na USP, em São Paulo, que já teve de recorrer "ao matinho e também a sacolinha plástica".

— Foram situações de perrengue extremo -- diz ela, ao lembrar que na Maratona de Lisboa, por exemplo, os corredores não têm nenhum constrangimento e fazem tudo no mato mesmo. — É que quando aperta é fogo mesmo. É isso ou fazer na roupa.

Em termos de higiene, ela fala que se surpreendeu no Japão. Mas também citou que os banheiros químicos da Maratona de Nova York, que usou no começo e no final da prova, estavam super munidos com álcool em gel e papel higiênico.

— Claro que é importante dizer que a questão do uso de banheiro também está ligado a cultura e a higiene de quem faz uso desses locais. Infelizmente, esse tema é bastante negativo nos países latinos e principalmente nas provas que já participei no Brasil.

O melhor do Brasil

Silvio Boia, de 41 anos, influenciador e criador do canal Kilometragem, elegeu o banheiro da Maratona Muralha Up and Down como o melhor de corridas no Brasil.

Esta prova acontece anualmente entre Visconde de Mauá e Penedo (RJ). A largada e a chegada são intercaladas a cada ano e há incentivo para que os corredores completem os dois percursos em anos seguidos.

Banheiro de luxo na Muralha Up and Down: até ar condicionado — Foto: Silvio Boia/Arquivo pessoal

Acostumado a correr pelo país, Silvio disse que nesta prova os banheiros na Arena de largada e/ou chegada são cabines adaptadas sobre um trailer e com rampa de acesso para cadeirantes.

Durante o percurso da prova, os organizadores disponibilizam banheiros químicos tradicionais.

— Nos banheiros da Arena têm até ar condicionado e uma pessoa limpando toda hora. Sempre que usei estava limpinho, melhor do que se vê em shopping, por exemplo — contou Silvio, que já correu seis vezes esta prova. — A organização tem um capricho impressionante. A prova cresceu, cada vez mais gente quer correr o Up and Down, e a Arena melhorou.

Na semana passada, Silvio correu a Meia Maratona do Sol, em Natal. A prova tem largada e chegada no campo de futebol da Arena das Dunas, estádio construído para a Copa do Mundo de 2014.

Ele lembra que vários circuitos tem realizado provas com largada e/ou chegada em espaços como os de shopping center ou estádios de futebol, justamente para que os corredores possam usar o estacionamento e os banheiros do complexo.

Também comenta que tem se tornado praxe os organizadores colocarem os banheiros perto dos pontos de hidratação.

— No Nordeste, calor mais fora do comum, há mais pontos de água e dá mais vontade de ir ao banheiro. Na Meia do Sol foi mais tranquilo porque usam a estrutura do estádio. E as pessoas ficam nas arquibancadas para receber os atletas — comentou o corredor, que por ser alto tem dificuldade de usar as cabines comuns. — E também são estreitas, tenho de entrar com a cabeça abaixada. A impressão que dá, independentemente da hora que esses banheiros chegam na arena, é que já estão batizados de fábrica. Poucas vezes vi zerado. Pode ir o mais cedo que for...

Silvio lembra do maior perrengue que passou quando precisou usar o banheiro. Disse que não foi em prova, mas em um treino no Leblon.

Silvio Boia na Muralha Up and Down: maratona na serra do Rio de Janeiro — Foto: Arquivo pessoal

— Acho que comi algo que não me fez bem na véspera. E quando deu aquela pontada, pensei: "E agora?" Será que dá tempo de chegar em casa:". Como moro em Copacabana, achei melhor encontrar um banheiro na praia. E por sorte estava aberto. Foram os quatro reais mais bem pagos da vida.

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