A primeira década do século representou os anos dourados da Classe C, também chamada de Nova Classe Média. Nesse período, ela tornou-se majoritária, reunindo cerca de 50% da população. Mais brasileiros passaram a ter acesso a bens de consumo sofisticados, realizaram o sonho do carro zero, puderam, pela primeira vez, viajar de avião e chegaram ao ensino superior.A partir de 2013, porém, começaram a aparecer os sinais de esgotamento daquele ciclo de mobilidade social. A Nova Classe Média não voltou ao ponto de partida, mas viu interrompida a trajetória de ascensão dos anos anteriores. Os padrões de consumo estagnaram e a expectativa de continuar subindo na vida deu lugar à frustração.O livro O Brasil da Maioria, de Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva, ajuda a compreender essa transformação e, sobretudo, o que aconteceu com essa população depois que a mobilidade social perdeu força.A ascensão da Classe C foi resultado de um processo que atravessou diferentes governos. Começou com a estabilização da economia e ganhou força na primeira década do século. A expansão do ensino superior, impulsionada também pelo Prouni e pelo Fies, levou à universidade milhões de brasileiros que antes dificilmente chegavam a ela. Bolsa Família e outras políticas de proteção social aumentaram a renda dos mais pobres.O otimismo econômico produziu também uma mudança de comportamento e de expectativas. Sua melhor tradução cultural talvez tenha sido Avenida Brasil, de 2012. O cenário e os protagonistas já não eram os apartamentos e personagens da Zona Sul carioca. Eram os subúrbios e sua classe média emergente.Mas aquele ciclo começou a perder força. A ascensão da Classe C havia sido impulsionada por uma combinação de crescimento econômico, aumento do emprego e da renda, expansão do crédito e políticas sociais. Quando esses motores perderam força e, pouco depois, o país mergulhou na profunda recessão de 2014 a 2016, a mobilidade social também estancou. E, como cantava Gilberto Gil, “o sonho acabou, foi terrível o sono para quem não sonhou”As jornadas de 2013 deram expressão a outra contradição. A nova classe média tinha melhorado de vida, mas continuava dependente de serviços públicos de baixa qualidade em áreas vitais como saúde, educação e segurança. Daí a cobrança por serviços ‘padrão-FIFA’. As pesquisas de Renato Meirelles mostram que também mudou sua relação com o Estado: continuou a exigir proteção e serviços públicos, mas passou a vê-lo também como aquele que cobra impostos, impõe burocracia e dificulta o empreendedorismo.No imaginário da classe média emergente, a felicidade se concretizava no tripé “casa própria, carro zero e filho na faculdade”. Esses sonhos foram sendo adiados. E o diploma do ensino superior deixou de ser garantia de acesso a um mercado de trabalho de maior qualidade.A mudança econômica veio acompanhada de uma mudança de sentimentos. Na fase áurea, havia otimismo e sensação de conquista. Com a estagnação, vieram a frustração e o medo de perder o que havia sido conquistado.Renato Meirelles resume bem essa mudança: uma coisa é deixar de ganhar; outra coisa é perder. A dor é maior para quem colocou um filho numa escola privada e depois teve de tirá-lo porque já não podia pagar. Ou para quem comprou o primeiro carro e depois precisou vendê-lo para completar o orçamento.Mas há um aspecto decisivo nessa história. A nova classe média não voltou a ser o que era antes.Passou pela expansão do ensino superior e, sobretudo, por uma revolução digital. Em 2010, apenas 24% dos domicílios da Classe C tinham internet. Em 2024, eram 91%. A Classe C que assistia a Avenida Brasil em 2012 não é social, cultural ou politicamente a mesma que chega a 2026.Essa transformação teve consequências políticas. A população que ascendeu principalmente durante os governos Lula atravessou depois as jornadas de 2013, a recessão, o impeachment, o bolsonarismo e o retorno de Lula. A Classe C tornou-se um território decisivo da disputa política brasileira.Também nesse período cresceu fortemente a presença das igrejas evangélicas, especialmente nas periferias. Elas passaram a ocupar espaços importantes de sociabilidade, pertencimento e formação de valores. Não explicam sozinhas as mudanças políticas da Classe C, mas fazem parte de uma transformação que não pode ser ignorada.É por isso que a história da Nova Classe Média não pode ser resumida à passagem da prosperidade para a estagnação. A renda perdeu dinamismo, mas as mudanças produzidas durante a ascensão permaneceram. A população que experimentou novos padrões de consumo, chegou à universidade, entrou no mundo digital e elevou suas expectativas não voltou à situação anterior.A nova classe média não é mais tão nova. Suas demandas hoje são muito mais complexas do que há duas décadas. Por isso, as políticas capazes de colocá-la novamente numa trajetória de prosperidade não poderão ser uma simples repetição das que funcionaram no início do século. O Brasil que produziu a ascensão da Classe C já não existe. E a Classe C que emergiu daquele processo também não é mais a mesma.__________________Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação e vice-presidente da Camara Brasileira do Livro.

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A nova classe média não é mais a mesma (por Hubert Alquéres)
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Imagem colorida de universitário comemorando
Imagem colorida de universitário comemorando · Imagem: Reprodução/Redes sociais
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